Depois de um dia intenso de trabalho em São Paulo, finalmente embarquei no voo rumo à Porto Alegre. Me acomodei na poltrona 2C — bem na frente e no corredor. Aliás, só viajo no corredor. Gosto de ter a liberdade de ir ao banheiro sem precisar pedir licença para ninguém.
Na última hora, chegou uma moça de seus trinta e poucos anos e sentou-se na 2A — na janela. Por sorte, a 2B, entre nós, ficou vazia. Tudo parecia perfeito: segunda fila, corredor e, melhor de tudo, ninguém ao lado. Não precisar dividir o apoio de braço da poltrona do avião é o paraíso dos viajantes frequentes. Pode parecer um prazer pequeno para você, que lê este texto confortavelmente acomodado no sofá de casa. Mas, acredite, depois de acordar de madrugada, voar até São Paulo, passar o dia em reuniões e retornar à noite, não tem nada melhor do que não precisar dividir o apoio de braço.
Depois de uns 20 minutos de espera, o embarque é encerrado, a porta se fecha e o avião começa a taxiar na pista. Desligo o celular e começo a ler os jornais no iPad. Minhas viagens de avião são assim: leio, trabalho, escrevo artigos, vejo um filme. Faço de tudo um pouco para aproveitar o tempo — e também para me distrair — ao longo do voo. Normalmente, as pessoas dormem ou ficam, assim como eu, entretidas com seus aparatos eletrônicos. Para minha surpresa, a moça da 2A não se encaixava em nenhuma dessas categorias. Ela não dormia, tampouco usava celular, iPad ou mesmo um livro. Ficava ali, sentada, olhando para o nada.
Me veio à mente um meme que circula pelas redes sociais: “Noutro dia vi um rapaz num café, sem celular, sem tablet, sem smartphone… Estava sozinho tomando um café. Parecia um psicopata.”
Confesso que comecei a ficar nervoso. Como alguém pode simplesmente ficar sem fazer nada nos dias de hoje? Isso não existe, pensei. Seja no avião, no ônibus, na sala de espera do dentista ou na fila do pão, todos estão sempre mergulhados em suas telas. Tentei ignorar o fato, mas não conseguia. Acredite se quiser: ela passou o voo inteirinho sem tocar no celular, apenas absorta em seus pensamentos.
No fundo, confesso que senti inveja daquela moça. Lembrei do livro Nação Dopamina, da pesquisadora Anne Lembke. O livro aborda o nosso sistema de vícios e recompensas. Muitas vezes recorremos a vícios — do cigarro à bebida, de estimulantes a sedativos e, claro, às redes sociais — na tentativa de nos protegermos da dor e das frustrações.
Segundo a Dra. Lembke, o tédio não é apenas entediante; ele pode ser aterrorizante:
“O tédio nos força a encarar questões maiores de significado e propósito de vida que nos causam angústia. Porém, por outro lado, o tédio é uma oportunidade para descobertas e invenções. Cria espaço para nos aprofundarmos em reflexões e também para formar novos pensamentos. Sem esse espaço, estaremos apenas reagindo aos estímulos à nossa volta, em vez de nos permitirmos estar dentro das nossas próprias experiências de vida.”
Eu concordo plenamente com a Dra Lembke. Pensar na vida, ainda que de vez em quando, é fundamental. E, por isso, senti uma espécie de inveja da moça da 2A e da sua capacidade de ficar horas mergulhada em seus próprios pensamentos. De psicopata ela não tinha nada. Tratava-se, isso sim, de uma alma bem mais evoluída do que a minha.